26 setembro 2014

Há algo que nos põe a mercê daquilo que somos. Mas o que será? Qualquer história, qualquer narrativa que nos lance ao absurdo da nossa própria realidade. O que tais narrativas são? Seria o caso de saber a origem do biógrafo! Este biógrafo nasceu de uma pequena história. [interrupção] Institui-se uma lei: tudo o que contribuir para o descobrimento do que sou deverá ser cantado, porque contado.
Há muito busco... Há tempos me interpus frente ao que pudesse dizer minha origem. Mas não! Eu estava na casa alugada em Bom Despacho, tinha apenas 6 anos, buscava apenas uma origem para papai. Dormíamos no barracão que teria pertencido aos meus avós. O que teria acontecido? Por que aquela casa não mais pertencia à família? Ruína, falência, desejo de ir à capital para depois voltar e recuperar o que perdera? Restava uma grande movimentação para a descoberta de um princípio; ditaria minha origem, mas era apenas um simulacro. Daquele sentimento, faço, agora, um momento para refletir: desde meus 13 anos, aos 34, que hoje 35. Dito: antes dissera que apenas iria me explicar - o que significava dizer sobre tudo, sobre todos - agora, minha esposa, uma casa, num lar; uma proposta pronta de perpetuidade, que necessito suster... e ainda, por que me envolvo nestas histórias? Estas histórias possuem dupla função: para o arquivamento da vida de anônimos, (que é minha vida), o que principia a constituição de um arquivo vivo, porque também vivo; e uma maneira de me manter em desvio, esquecendo-me - como se fosse possível - da incessante escrita, da multiplicidade de apagamentos, da minha própria história.

24 setembro 2014

Celebrações: casamento da fidalga

Moça honrada y fidalga em casamento com principao da terra. Os parentes e amigos se vestião uns de veludo carmesim outros de verde mais damasco e sedas de variadas cores e os guiões e selas dos cavalos das mesmas sedas de que tal iam vestidos. Estavam os pretinhos de jaquetam, algodão, mulas, crias quase nuas, assustadas, odor de fávelas, flores brancas investidas na pele negra.

Imagem e semelhança

Tito sempre fez da palavra o dito, e disse que desejava um deus para si. E disto que desejou que esse deus fosse um pouco diferente dos outros; e, não custando uma bagatela, nunca recebesse oferta em espécie. Desejava um deus que também não ditasse a hierarquia dos intermediários. Que nunca demonstrasse muita sapiência, no tanto de saber latim. E que sentisse talvez pena do penar, sem, contudo, obrigar o desperdício de tanta tinta. Que tivesse um pé na cova e o outro em pré-chute. E chutasse os unguentos, os olinhos, as cornetas e falanginhas dos anjinhos. Tito talvez quisesse um deus diferente, que fosse assim meio sem-terra meio sem-teto, um pouco sem-vergonha. Que se sentisse sempre atrasado para as missas e reuniões. Que sempre dissesse o que lhe desse na veneta de todo-poderoso, no quanto de sempre estar ressabiado, com a pulga atrás da orelha. E sem mais quê, Tito desejou ter um deus que aparecesse de supetão, intentando causar susto nos que creem. Tal deus devesse ser tudo o que tinha para ser mais o que não tivesse jeito, e que nunca o deixasse ao seu deus-dará, sem trabalho, desditoso, infeliz, desesperançoso, porque isso é sinal verde para os falsos e os aproveitadores. Mas também responsável no tanto de não dar tudo o que, por mimo, pedirem, por mimados que são. Desejava um deus editor, que não deixasse de revisar cada disparate e aumentar, em obra revisitada, o amor e o respeito nas novas edições dos textos sagrados. Um deus leitor que muito entendesse Tito porque há tanto que o leu como um bom original, potencialmente publicável, percebendo nele todas suas inscrições, seus gravos e agravos. E disto, permitisse seu fim das contas, num sinal dos tempos. E que Ele fosse, de Tito, um pouco quase igual, sem desejar ser rei, sendo respeitador de sua máxima do livre arbítrio, na consciência (omnisciente) disso ser a causa e o efeito de todos os males, e de cada bondade, numa regra de um jogo cujo fim, afinal, sempre é retorno.

07 novembro 2013

Carlos Henrique Pereira Soares Neto

Hoje conheci Nelito. Não faria diferença ter sido ou não apresentado a ele para bem conhecê-lo. Nelito sempre se fez e continua a se fazer confiante no padrinho. Imaginando Nelito como um ponto em uma linha de tempo, todos os pontos anteriores a ele, seus ascendentes, tiveram valor; e cada um dos pontos ulteriores (caso não vingue uma verdadeira revolução cultural)  deverá valer o mesmo tanto: 1000! De tantos mil contos de réis, cruzeiro, cruzado, cruzeiro novo, cruzeiro real, real... em câmbio da operação de fingir que não vê as desigualdades perpetradas pela administração, mantidas pelos governantes oriundos das camadas da boa família e tradição. Nelito recebe muito, pelo muito que paga: ao comprador, o preço justo da lealdade para a manutenção de todas as diferenças.

05 novembro 2013

Outro lado do telefonema

... Oi. Como vai? O que você manda? ... Tudo bem. Mas se vierem pedir de novo pra falar sobre mim, nada vou dizer, tudo bem? Demora e estou sem tempo. ... Não não, eu que me lá... continuo achando importante que pensem assim. ... Não reforça nada que me importe a não ser que eles continuam sendo... Reafirmo o que já te disse naquele dia: sou isto, mas também fui diferente, há vezes que acerto, às vezes conserto. E não vá escrever sobre mim que não te autorizo nada, ou melhor, hum!, escreva, sim? E reforça também, que tem? ... Apreciação sua. ... Como quiser. ... Forte abraço, até.

10 setembro 2013

roupa de cerimônia

A única explicação para todas essas atualizações: a manutenção de uma eterna estação que justifique aplicar ideias como se escolhesse, no guarda-roupa, um mesmo fraque, puído nos cotovelos, para qualquer ocasião.
Esta perpetuidade é garantia, ou melhor, garantida, quem sabe, na não interrupção de um pensamento mesmo que, ao findar de uma biografia, inicia-se sem prejuízo, na outra con-sequente.

28 agosto 2013

Entre o truque e a magia

Mateus me dizia que quando era pequeno seu pai lhe dissera que era um abridor das portas da escola.   Eu criava que ele era meio diretor meio... como digo... abridor de latas. Logo quando cresci... Uma porta foi aberta. Entrar em um lugar implica a saída de outro. Assim percebera o que tal tarefa de fato compromete. Daí, eu já sabia que, mesmo sendo visto simples, se não vissem que era melhor, ao menos veriam que é algo muito... import... digo diferente.

23 agosto 2013

regresso, sem regra

A morte! (carta lida há pouco pela cartomante).
Após a revelação,
o umbral.
Logo, novos ares,
outros lugares.

23 maio 2013

Apenas um menino

Joãozinho nascera na cidade de Santa Luzia. Talvez não seja o caso de dizer seu nome todo, porque até 2013 ele continuava a ser Joãozinho, fruto do amor de Neneco e da Dona Juracy, coroado no dia 12 de dezembro de 2003. Para esta biografia, foram feitas entrevistas diversas, em várias ocasiões em que estivera o menino. Ademais delas, foram feitas observações de quando ele se inteirava da casa, do quintal, da rua, da escola, do mundo. Joãozinho conversava pouco, com pouco entusiasmo, entretanto, possuía diversos questionamentos, várias dúvidas sobre a existência. É provável que quase nunca tenha dito sobre o que carregava porque aquilo assustava a todos, fazendo-os ter que refletir sobre as condições, sobre as durações. Não há mal que nunca chega ao fim, escutava, mas nisso pouco punha fé. Um dia vou dar uma reviravolta, ouvia dos parentes. Tais ditos vinham de supetão e não traziam qualquer reflexão. Funcionavam como interjeições, como suspiros de esperança, em que o desejo de mudar de vida estava seguro pelas mãos, nos números rabiscados no bilhete da mega-sena. Ai, Joãozinho, Joãozinho, como crescer dedicando o crescimento à sorte que mudaria a vida, do sofrimento, da labuta, em vitória e sucesso. Dinheiro, dinheiro. Arroz, feijão, mistura, leite. Dinheiro, dinheiro. Arroz, macarrão e salsicha. Cadê o real para a cervejinha do fim de semana, pra curtir o clássico? Caderno, o menino precisa de caderno, que já acabou, o que essa praga anda fazendo com as folhas? Se te pegar fazendo aviãozinho, se te pegar desenhando... Onde andará algum alívio de escutar histórias? Não há mais disso. Não há mais sugestões, dicas, atalhos. Não há mais passado, apenas este presente obrigatório! Apenas esses ensinamentos por manutenção da rotina das reclamações. Joãozinho, sei o que virá; e você poderia até imaginar. Neste momento não há mais o que dizer. Sua vida pode ser também imaginada, pelo leitor, que talvez construísse um futuro, repleto de problemas, cheio de fracassos, intercalados com uma fugaz alegria de divertir-se durante o esvaziamento de copos. Talvez o leitor também lhe atribua alguma culpa para a vida que ele lhe dará. Eu, eu farei o contrário: será dado a você aquilo que hoje traz dentro do peito, e que é aquilo que continuará, sempre, trazendo, apesar de tantas forças contrárias, todas sabotagens. Do leitor, ah!, do leitor faço algo: Eu também: eu também sou Joãozinho.

05 janeiro 2013

Estilhaços:


Debu
Quando fiz 15 anos, arranjei meu primeiro namorado de verdade. Wesley não era gordo nem magro, não era feio nem bonito, nem trabalhador nem preguiçoso. Tinha 19 anos de nenhuma adolescência e quase alguma responsabilidade de adulto. Mamãe trocou a festa dos sonhos pela permissão que namorássemos no portão de casa. Troca justa, acredito, pois que como seria ter que levá-lo à festa, e dançar com ele, depois de ter dançado com Clemente. Além disso, não consigo imaginar onde mamãe teria arrumado tanto dinheiro... Festas custam caro, ainda mais as de debutantes, com todos aqueles frufrus e coisas necessárias. Mesmo que sejam tão do jeito que tinha que ser, porque não éramos ricos.

Uma semana antes do aniversário, Clemente disse para que eu chamasse alguns amigos para comemorarmos. Haveria bolo, guaraná e uns salgadinhos encomendados. Chamei todos, com a exceção do Wesley, que Clemente disse que fazia questão da presença.

Começava o telejornal quando a primeira convidada chegou. Trouxe uma sacola com petiscos e uma lembrancinha, como ela mesma disse. Bons tempos em que pouco se espera por já conhecer os limites. Aceitando ou não, nem muito fazia questão de regalos e regalias. Ainda não tinha esta vontade louca de praguejar aos céus, o que você pensa que eu sou pra vir aqui me trazer uma lembrancinha? E eu sou lá mulher de que alguém possa lembrar no diminutivo? Aceitei com sorriso meio surpreso e com pensamento na sorte que eu tinha por ter sincera amizade de coleguinha. Uma, duas, três, quatro e a festa estava completa. Ao som do radinho, me senti uma pessoa especial. É pique, é pique!

06 novembro 2012

Filho pródigo

Arrasta.... Virge... arrasta... 
ando precisando achá a vida!
Desmineralização dos dentes amarelados, pontas dos dedos amarelecidas, doentes. A pequena pedra incandesceu por sobre a lata de Coca-cola. Cor ocre; candente; rubro-claro; ouve-se o clamor ardente do choque da vida com aquela massa perdida, muita vez restaurada.

04 novembro 2012

biografia por pequenas partes

Numa manhã de verão, principiou a acontecer algo que não poderia ser conhecido naquele momento, chegamos em Bom Despacho. Ficaríamos na casa que teria pertencido a meus avós...

26 outubro 2012

Futura pequena

Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.

(Cruz e Sousa. Litania dos pobres).

A menina possui 10 anos completos anteontem. Poderia ser dito um milhão de coisas sobre seu futuro; narrar dezenas de milhares de eventos que sabemos que hão de vir. Mas é só uma criança, apenas 10 anos. Ainda não vivera o suficiente, vão dizer! Não bastasse sua morte prematura, qualquer contação das experiências não vividas marcaria apenas possibilidades. Uma morte em tal idade, ao mesmo tempo em que impossibilita para a menina a experiência de crescer e experimentar os instantes futuros mesmo desconhecendo sua condição e todas as diferenças e possibilita a colocação, por nossa parte, de todas as lamentações de um morreu tão jovem, um mal conhecera a vida, virou um anjo, foi chamada por Deus a compor a mesa de jantar, gerando com isso um discurso para o antinatural da vida, no não natural de uma morte precoce. Para além deste lugar existente, uma morte prematura institui a necessidade de construir uma mercadoria diferente, de proporções incomuns: o pequeno caixãozinho de dimensões diminutas, cuja compra por carnê, em 36 prestações, sugere um alívio pela interrupção do sofrimento certo; esse ataudezinho irá conter, até o final dos tempos, a pequena menina, servindo-lhe de monumento, a torre formidável em graças ao que teria sido a parte que faltará da sua vida como sonho de vida, encerrada nesta ventura, mimo da Providência, que é esta toda a sua biografia.

23 outubro 2012

Contra as pessoas de bem

Ao grande escritor Ferréz


Aníbal cresceu como todo mundo que nasce na Favelinha cresce. Temente à pobreza com que convive e que, em um vacilar dos desejos, poderá agrilhoá-los vagarosamente com os ferros de todas as outras violências! Desconhecia o nascimento desta miséria completa, apenas conhecia a violência perpetrada pelo asfalto em favor da manutenção da ordem, ameaçada pelos violentos do morro! Aníbal, que pedia clemência à sorte, buscaria um outro futuro. Frequentava assiduamente a escola pública, que todos sabiam ser fraca, deficiente, embotadora, onde Aníbal se manteria, iria resistir, na intenção se educar e se preparar. Recusou as correrias, se negou a ficar de bobeira nas quebradas, temia não controlar seu instinto de prazer.

Não significa que recusara uma convivência com seus companheiros, trocava algumas ideias, perguntava sobre a saúde dos velhos, pais dos amigos, e só. Não queimava, não aguava, não enterrava. Sua sorte estaria, imaginava, nos quartéis.

Abdominais, água e estudo restrito de uma pequena gramática permitiriam-no entrar para a policia.
Sonhava ser soldado! Que possibilitasse uma vida melhor com um ordenado certo, e que, de quebra, pudesse levar aos mais pobres um pouco da justiça que não chega naquele local.

Na sua cabeça e no seu coração de grande ansiedade por mudança pra Favelinha, cogitara ser mais que um braço do Estado, mas mãos que amparassem...

De alguma maneira, pensava ele, o Estado chega naquelas bandas, o que talvez fosse necessário era mudar a intenção de estar ali.

Em 2007, depois de anos de pau, conseguiu finalmente entrar pra corporação. No momento em que lera seu nome no site, chorou. A sorte lhe abrira sorriso, quem sabe se tudo não fosse não só diferente, mas melhor.

Hoje, 23 de outubro de 2012, Aníbal derrotado pela luta dos dias há tanto se afastara dos ideiais. Não cabe dizer que sucumbira, que se vendera, que tornara-se inimigo dos seus, acontece que discursos proferidos dia a dia, entre uma refeição e outra, entremeando-se aos pensamentos rotineiros de ter que comprar feijão, consertar a laje, bater continência, levar o filho no posto, enterrar o tio Nené, tomar uma gelada com os parceiros; discursos que foram alongando-se, entrecruzando-se aos intensos treinamentos de guerra, gritos dos superiores, hino nacional, engraxar o coturno, bater continência, passar a farda, escutar risos de menosprezo em batidas policiais, comprar fralda pro filho mais novo, ser elogiado pelos superiores... Discursos que se fundiram primeiro na mente, depois no coração! Às vezes sentia que estava nos eixos dos seus antigos desejos e que não perderia o foco. Precisava manter-se. Um tapa desferido por seu companheiro de turno na cara de um moleque que fora abordado apenas por ser negro doera-lhe muito, chorara por dentro. Logo, depois de inúmeras atrocidades assistidas, passou a cometê-las também; e era apenas por começar a crer ser um senhor da correção, um braço da Lei, um juiz menor, porque não se fez Doutor, mas também necessário.

De fora de seu pensamento é natural condená-lo: perdera-se. As opiniões ficarão divididas: seus vizinhos e parceiros daquela vida de subir o morro no fim do expediente dirão que é um vendido, um traidor; a outra parte da sociedade, seduzidas pela vaidade de não morarem nas favelas conectadas aos discursos das grandes mídias elaborados especialmente para a classe média, dirão que o soldado é o que é, é da índole desse tipo de gente nascer bandido. Esta parte da sociedade que o condenou é a mesma que profere, sempre que algo assim acontece, é bom que eles se matem, ensaiando uma justa opinião (é sempre desejável tê-las, demonstra caráter, consciência de si, consciência do mundo em que se vive). Misto de misericórdia, benevolência e espírito cidadão; grata, grata e grato. Resta-lhes apenas uma expressão que nunca será pronunciada, por prudência, mas sentida, se um contra todos, todos contra um. Talvez valesse a pena saber que a cada morte causada pela diferença, marcada pela pobreza, deverá ressignificar-se, para os ricos, em um por todos, até o último, e para os pobres, todos por um, desde o primeiro.

Notícia do Jornal Popular do dia 24 de outubro de 2012:

Ex-soldado da PM é morto com 33 tiros de pistola
Acusado de exterminar policiais e seus próprios comparsas, o Ex-PM que pertencia à milícia da Favelinha foi morto, neste dia 24, por uma tocaia armada perto de sua casa [...]. Ainda não se conhece o autor ou os autores dos disparos, porque o ex-soldado criara inimizades tanto do lado da polícia e do lado dos marginais [...]. O especialista em Segurança Publica treinado pelo FBI, o Doutor Sergio Guerra, afirma que a conduta assassina do Aníbal provinha de uma adolescência de excessos pelo uso intenso de entorpecentes, que fabrica assassinos, mesmo aqueles que deveriam lutar pela paz, pela segurança nacional. "Colocar uma arma nas mãos de um assassino nato é algo que o Estado não pode permitir, por meio de uma prova de seleção mais dura, de treinamentos mais rígidos é que se conseguirá evitar que esse tipo de delinquente possa ingressar na carreira policial, devemos selecionar bem as maçãs boas das más, para que as pessoas de bem possam continuar trabalhando em prol da riqueza do Brasil." 













16 outubro 2012

João Pinhão

Em outubro, há 104 anos, morria, aos 48 anos, João Pinhão, ilustre homem, grande exemplar do direito, das tribunas, da história política do país. Magister trouxe incontáveis benefícios às famílias tradicionais. Proprietário do bom agir e de diversas coisas, investidor perspicaz, vendeu cerâmicas mil, tijolos e telhas, para grandiosas edificações. Cobriu e calçou inúmeras construções. Virou fundação e nome de cidade, mas liberdade maior  foi ter se avenidado, no lugar da liberdade,
portanto, herói desta Nação.


20 setembro 2012

a história da menina

Se este verbete começar por dizer que era difícil encontrá-la em meio a turba de outras crianças, porque, em um olhar desatento, todos eram iguais, mas diferentes do resto do mundo, é mister que estas informações sejam em todos os detalhes incorporadas à narrativa, em que se revelem por revelarem algo importante, ou mesmo um nada total ou absurdo.

Caso tais informações não digam nada, não fazem falta se não forem lidas; ainda, caso nada revelem, pode-se imaginar uma opção pela ilegibilidade, à escolha do biógrafo. Se forem apenas informações pequenas, ou uma tentativa de que se estabeleça a sintonia, pois bem, deem como estabelecida. E mais, caso sejam pertinentes, as usem para que se possa compor desta, uma história da menina.

A partir disso, para o começo serão dispostas informações que intencionalmente pouco revelarão verdadeiramente sobre menina, mas demonstrarão uma solução pelo mais óbvio, o mais imediato; a contar com os juízos dos leitores, para de-compor por sorte a raiz das ideias preconcebidas, as imagens constituídas, as personagens preestabelecidas. Com isso, pretende-se apenas contar a história da menina, de um outro modo, de um modo confuso, partindo de todos os preconceitos - que são marcas indeléveis do ser, de um jogo erótico entre a culpa e o desejo de tê-los - chegando ao real que é a sua história.

Era negra, a menina. Uma menina que frequentava uma escola da periferia da cidade de Belo Horizonte. E nesta escola, se misturavam todos, todas as crianças cujo futuro era mais ou menos conhecido. O que o futuro lhes reservava era opção de servir ao crime, obtendo meios de subsistência mais apropriado a que se cumpra o suprir as necessidades e realização de todos os desejos imagináveis; a outra opção, mais lógica, era amainar a vontade de serem médicos, por carência de uma disciplina, a que a própria escola desconhece, portanto, não ensina, e seguir as profissões possíveis para as pessoas da comunidade.

Seu pai era um bêbado que mantinha a qualificação trabalhando em um turno, na construção da cidade. Tão logo vencia a jornada, adentrava no primeiro botequim, e consumia alternadamente cerveja e cachaça. Sua mãe era uma mulher espalhafatosa, de verbalização teatral, de caras e bocas, movimentos firmes dos braços e das pernas. Ressentia-se do fato de não haver solução para o marido. Ressentia-se de algo mais, ao que nunca viria a saber. Dos parentes, diria-se que não houve chance para que refletissem todos sobre si, e se colocassem de outro modo, frente a vida. Um dos tios fora pego pelo artigo 157, estava preso, aguardando vistas com o juiz. O outro estava foragido, ninguém conhecia seu paradeiro. Uma das tias possuía outras incumbências: criar sua grande prole sem ajuda dos pais das crianças, aos sábados, frequentar o baile e aos domingos, igreja. Dos avós nada poderia ser dito, eram um senhor e uma senhora assustados pela rápida mudança dos dias, da linguagem e a incapacidade de entendê-los, permanecendo, assim, apenas abertos e dispostos a receber os descendentes com uma feição bondosa, um sorriso calmo e uma força obtida do apelo a Deus, quando os parentes vinham com alguma tristeza.

A menina crescia feliz, indo e vindo da escola, lugar onde ela podia brincar muito, e em onde se ensaiavam os papeis de atuação em uma vida desejável. Há que pôr respeito frente às insígnias, às bandeiras, aos selos e às armas. Há que embranquecer os textos que não são escolares e que não caibam no papel timbrado da educação. Há que tomar banho, almoçar, lanchar, manter as unhas e orelhas limpas. É dito que estas regras eram aprendidas brincando. Por reforço aprende, na primeira vez que se apanha de um menino mais forte e pede ajuda aos adultos da escola, que a voz nunca conseguirá mudar a expressão de que os meninos são assim, a vida é assim.


Não há mais classes em luta, talvez nunca tenha havido, o que há são pessoas se enfrentando e seus desejos de sobrevivência baseados na garantia da ultrapassagem, a usar de todos os modos e estratégias para a diferenciação, usufruindo, vez por outra, do discurso sobre a luta, que deixa a todos, inclusive os especialistas, bem pacificados. É que a vida sempre confirma os modelos, e a realidade já é conhecida; ao acaso ninguém pôs sistema, de tão incontrolável, mas que ele continue a trazer, a cada vez que toma rédea, uma certeza messiânica e uma incerteza científica; a ideia de que não se está imune a ira de Deus e à imprevisibilidade da natureza.

A menina cresceu com todas as dificuldades que o sliêncio impõe. Ganhou corpo, formosura, curvas. Virou mulher em uma brincadeira de adolescentes. Estaria frequentando, neste 20 de setembro de 2012, o ensino médio na escola estadual perto de sua casa, conciliando os trabalhos de faxinas na casa de Aurora e o ensaio de vida, pouco prática, dos estudos. A verdade da vida era obtida mais completa nas idas e vindas, do trabalho para o convívio social nas esquinas do bairro, nas idas ao forró, aos bailes funk. Engravidou-se de um carinha e teve uma menina, a quem chamou Glacyanne. Vive, hoje, com um cara que aparenta ser bom padrasto para Glace, o que é bom. Faz tempos que a filhinha não vê o pai, cujo contato ainda continua por força de lei, percebida pela pensão de cento e vinte e quatro reais e quarenta centavos. Hoje, se a primeira menina parar por um segundo para refletir sobre sua vida, há tanto os sonhos se esvaíram... e que todos se indignem por um segundo, que tenham dó, mas continuem a se contentar. A vida é assim mesmo.









18 julho 2012

função poética

"Preciso pintar.
Preciso de um atelier.
Nele desnudarei todas as mulheres do mundo." 
(A. L.)

É notícia quase velha, mas ainda carece destacá-la: morre na Paraíba, neste 14 de junho de 2010, aos 92 anos, o escritor A.L.
Morre junto de um segredo: nem tanto deve exisir razão para qualquer necessidade; e de uma violência perpetrada: nem carece haver tanta de explicar suas razões.
Pois que fosse improvável por incerto haver desnudado todas as mulheres do mundo − que é uma megalomania do machismo − investira, como Bandeira, na poética; teria desnudado, portanto, quantas houvesse desejo, até que, com insistência, lhe caísse a ficha!

27 junho 2012

Certeza, certeza

Quem sabe como se chama? Deve ter nascido em 26 de setembro de 1979. Aposto! Talvez seja daqui mesmo. Não consigo saber. O que será que leva à bolsa que lhe traz tanto peso? Caso apoie outra vez isto na catraca, não sei não. Que tanta cara de satisfeito! Vaidade mata, cara! E estes óculos, metido a intelectual! Se soubesse que esta postura fosse meu mal, punha fim hoje nesta sua vidinha, infeliz!

22 junho 2012

Estilhaços:

A noite do estilhaço

Já que pergunta com tanta delicadeza, 
eu lhe digo, seu moço: desgraça só carece começar.
(Jorge Amado, Tereza Batista cansada de guerra)


Nasci assim, pretinha, tão diferente daquilo que já circulava pelo mundo, que mesmo só Clemente e minha mãe sabiam. Clemente, não sei. Bem que nem passava pela sua cabeça outra coisa. Não que fosse pouco esperto, mas é porque um dia ninguém se põe a pensar na possibilidade de ter sido corno. Pois mamãe não dava pinta. Mamãe, ela sim conhecia tudo, tanto que eu nunca consegui passar-lhe a perna. Sempre descobriu. Não que estivesse sempre desconfiada, pois que tudo o que passa pela cabeça de alguém que desconfia é um tipo de ficção que se acredita, mais pobre, mas mais livre.

Clemente fora acordado antes por um chamego, mas por um safanão, que o fizera despertar assustado. Passou pela cabeça uma mistura dos tempos de quartel e aquele sutil despertar somado às batidas policiais quando risos assustavam mais que gritos. Mal abriu os olhos e foi fazer aquilo que já tinha como plano de ação. Mesmo que eu fosse sua primeira, parecia que já sabia o que tinha que fazer. Levantou sonolento vestiu uma bermuda que estava suja no canto do quarto, pegou os óculos enquanto abotoava a camisa de gola. Nunca vira Clemente usando outro tipo de camisa, mesmo quando estava trabalhando na masseira. Mamãe berrava que agora nem sei se era por dor ou só pelo costume de gritar alto com todos. Clemente saiu do barraco e foi avisar o Neco que era noite de ir ao hospital.

Um cachorro latiu, as galinhas acordaram e um gato fugiu ressabiado quando Clemente chamara pelo amigo. A mulher de Neco abriu a porta e Neco, apontando testa por detrás da esposa, fez cara de um segundo assustado. O terceiro destes fatos. E ele logo entendeu que tinha que esquentar o Monza. Sua mulher mudou de susto para chateação, pois não queria mesmo que Neco ficasse ajudando todo mundo. Dizia sempre que se não cortar o pessoal eles continuariam abusando da boa vontade.

De pijamas Neco foi levando a resignação de ser o bom vizinho e amigo. E amigo parecia motivado, dizendo que Clemente seria bom pai, disse também que, depois do ocorrido, iriam beber uma branquinha em minha homenagem. Imagine, eu, logo eu, esta neguinha. Eles foram, Clemente atrás e já parecia um pai.

Não sei o que mamãe fazia dentro do barraco que custava a sair. Ainda demorando ela entrou no carro, colocou defeito, reclamou do cheiro de mofo e nem explicou os porquês.

O hospital era mais sujo e mais em conta para eles. Pois que não pagariam nada, já que tudo estava por cargo da saúde. Mal gosto de lembrar daquele hospital e seu entra-e-sai de gente morrendo, sangrando, sofrendo. Às vezes por ali tinha alguém como a gente. Que teria ido por motivo mais alegre. Mesmo que na maioria das vezes os motivos vinham depois de algum acidente, esquecimento, rapidinhas, camisinhas estouradas. Nasci planejada num quarto cheio de pessoas. Estava minha mãe sobre uma maca de lençóis sujos e tinta descolando da ferragem. Demorei, causei o primeiro sofrimento dela, e sai. A primeira cara que vi não era muito amistosa. O médico cujo nome não me lembro fez tudo conforme o protocolo, acredito. Não sorriu, não disse nada e não fez a cara digna do nojo que sentiu. Pegou-me pelas pernas, e alevantou-me em direção à luz. Ninguém sorriu. Mamãe também não sorriu. Se bem lembro, minha mãe só sorria em pouquíssimas ocasiões, mas deixo para contá-las, caso faça falta na história «a qual chamam biografia». Bem, não prometo nada.

Logo quando a enfermeira se aproximou a tocar-me, e me tocou na pele, ao tocá-la, entrou gritando no quarto, um velho bêbado e fedorento que esperneando tanto, tremeu, babou, e cambaleou até uma mesinha e caiu por cima. Estilhaçou toda a vidraria daquela sala. E pena, pena, escutei, o corte profundo que os vidros causaram em seu pescoço não chegaram a degolá-lo.

21 junho 2012

Pequena Cacique


A Maria Virginita de Oliveira,
 
Uma indiazinha que no início não passava de uma pequena indiazinha, mas que no fim «que também é um princípio» viraria uma cacique, dizia que ser o irmão mais corajoso e mais forte da aldeia não significa ser o mais corajoso e mais forte do mundo inteiro.

30 maio 2012

Biografia do biógrafo


No dia 23 de maio de 2012, uma manhã do sol de Sacramento que, pelas rajadas de vento, não chega a esquentar, a senhora da prefeitura contava que no povoado de Desemboque havia um homem que teria vivido 125 anos. Contava por uma dicção mais próxima à informação a que se põe como pequena qualificação daquela localidade, uma vantagem, uma espécie de idiossincrasia local que se estenderia ou deveria se estender de dentro da própria cabeça a toda população da cidade. Para isso, utilizara uma foto antiga como comprovação de que a existência era real. (Papel desbotado de revelação em técnica já desacostumada, em que se vê um ancião em expressão de estátua equestre, aparência de conquistador do oeste).
Chegado ao povoado de Desemboque, inteirando a Igreja de Nossa Senhora do Desterro pela entrada dos fundos, avizinhou-se e tomou parte do cemitério que se estende pelo interior do largo da igreja, cercado por um muro de canga e fora impelido a percorrer túmulos. Partiu-se da cancela da lateral direita dos fundos da igreja, passando paralelo à porta da sacristia lateral, caminhando paralelo ao muro, vencendo a sineira pousada à direita, o túmulo do jovem Junior, ganhando passada, alguns outros túmulos à frente, dois pares paralelos, cessa ligeiro o movimento diante da esquina, volve o dorso à direita, tornando outra vez a ação de caminhar desta direção um caminho certeiro ao jazigo do Senhor Benvindo Coelho Simões, nascido em 6 de março de 1852, falecido em 13 de setembro de 1977, portanto, cento e vinte e cinco anos, seis meses e uma semana de existência. Testemunho desta longa vida que perpassou anos de grandes mudanças, e, mesmo depois de falecido, quase meio ano antes de completar trinta e cinco anos de desencarnação, Benvindo, todavia continua a ultrapassar o tempo, atravessando histórias.

03 maio 2012

Carências


 
                                                                             Nem a vida pregressa a este momento 
nem a morte são possíveis de constarem desta biografia; 
logo será!
         

Célia, 18 anos, ruiva, recém-chegada do interior, oferece seus préstimos para Senhores de bom gosto. Instruída, boa companhia, adora beijar. Encontrada na pça 7, ao lado do Nunes Guerra, sem erro.

30 abril 2012

Torrente líquido


Rodrigo, 29 anos, ajudante de pedreiro, filho de André Carlos e Zélia, se descuidou da laje, que imprensou tórax e bucho, amarfanhando os miúdos. Sepultamento hoje às 17h, cortejo saindo da Capela II do Cemitério do Boqueirão, logo depois da ponte.